A Brecha na Consciência

Door

Nós normalmente pensamos que o sofrimento é causado por más experiências, mas na verdade ele é causado pelo fluir da nossa atenção em direção ao que não está aqui, em direção a algo que não é muito real, como uma idéia ou uma fantasia, que são realidades muito pequenas. O sofrimento termina quando nossa atenção está fluindo em direção ao que está realmente acontecendo, ao que é real no momento. O sofrimento é a distância – a brecha que se abre entre o que somos e o que é. No entanto quanto maior for a diferença entre o que está realmente acontecendo e onde você está colocando a sua atenção, maior será seu sofrimento. Se não há diferença, então não há sofrimento.

Essa lacuna pode estar presente independentemente de estar acontecendo algo bom ou ruim. Por exemplo, se alguém que você ama está morrendo, a sua consciência pode estar tão completamente concentrada no que está acontecendo nesse momento que a experiência não contenha o sofrimento que seria de se esperar, embora o sofrimento possa aparecer mais tarde se os pensamentos fluirem na direção de como as coisas deveriam ou poderiam ter sido. Em contraste, há momentos em que as coisas estão indo muito bem e você está sofrendo porque muitas vezes você tem medo que as coisas mudem. Se esta verdade é compreendida, que sua felicidade não depende do que está acontecendo – isso pode mudar a sua vida. Isso pode não afetar o que está acontecendo, mas vai mudar a sua experiência do que ocorre.

Nossas esperanças, sonhos, desejos, medos, dúvidas e preocupações não estão realmente acontecendo, portanto elas são realidades muito pequenas. Quando dedicamos nossa atenção para algo que não está realmente acontecendo, nós sofremos. Quando nossa atenção está focada nessas coisas, nunca nos sentimos satisfeitos porque elas não nos bastam. Mas quando dedicamos a nossa paixão e curiosidade mais para o que é real no momento, não sofremos. A que você está dedicando sua consciência, sua paixão, sua curiosidade?

É muito simples: o nosso sofrimento é uma questão de quanto de nossa atenção está fluindo em direção ao que não está realmente presente, como esperanças, sonhos, desejos, medos, dúvidas, preocupações, ideais e fantasias. O que estamos querendo não está presente ou não o estaríamos desejando ou temendo. Nossos medos são tanto uma invenção da nossa imaginação como também o são os nossos desejos. Nenhum desses pensamentos é real, e dedicar nossa atenção ao que é irreal nos tira do contato com o que é real, onde a vivacidade do Ser pode ser experimentada.

Rejeição e desejo são os mecanismos com os quais resistimos ao que é, o que resulta em sofrimento. Eles operam em um ciclo: Nós vamos e voltamos da rejeição ao desejo. Nós pensamos, “Isso não é bom. Talvez se eu conseguir isso ou se eu meditar mais ou se eu tiver um amor melhor ou mais dinheiro ou mais liberdade, eu me sentiria melhor.” Então nós vamos tentando satisfazer esse desejo e, independentemente de sermos bem sucedidos ou não, voltamos ao ponto onde nós rejeitamos qualquer coisa que ainda está presente agora. Mesmo quando obtemos o que pensamos que queremos, podemos descobrir que aquilo não é assim tão fantástico, então sonhamos com algo mais que acreditamos que irá tornar as coisas melhores.

Esta atividade de desejar o que não está presente e rejeitar o que está cria e sustenta o sentido de uma pequena identidade, o eu. Se as coisas estão ruins, elas estão ruins para quem? Para mim. E se as coisas poderiam ser melhores, melhores para quem?Melhores para mim. Estamos muitas vezes nem sequer conscientes da rejeição e do desejo porque nós ficamos presos no conteúdo dos nossos desejos e fantasias. Ficamos tão hipnotizados por nossas fantasias que nem sequer estamos conscientes de que elas estão restringindo o nossa identidade e fazendo-nos sentir muito pequenos, incompletos, deficientes e insatisfeitos.

No entanto, esse sentimento de incompletude pode ser confiável. Ele está nos dizendo o quão verdadeira é a idéia de que a fantasia vai fazer você se sentir melhor. A sensação de incompletude e pequenez na experiência de fantasiar mostra o quão pouco de realidade existe na sua fantasia. Fantasias não são muito reais. Elas só existem em nossa mente. Não há muita substância ou realidade nelas. Você também pode confiar quando o seu Coração se sente pleno e completo. A alternativa simples à rejeição e ao desejo é dedicar a sua atenção a tudo o que está aqui agora, e não apenas aos seus pensamentos e sentimentos.

A maior surpresa é descobrir que não há sofrimento, mesmo em nosso sofrimento! Quando você dedicar toda a sua atenção para a experiência real de rejeição e desejo, o sofrimento inerente a eles se dissolve. Quando nos tornamos curiosos e atentos ao processo de rejeição, ele já não nos causa qualquer aflição. Se você se tornar completamente presente para o movimento do pensamento, um pensamento pode ser reconhecido por aquilo que ele realmente é: apenas um pensamento!

~That is That Essays About True Nature , Nirmala

Nirmala é um professor espiritual da tradição advaita, vive em Sedona, Arizona, com sua esposa, Gina. Leia uma entrevista com Nirmala aqui. Mais informações sobre ele e seus livros, incluindo That is That, Essays About True Nature estão disponíveis em http://endless-satsang.com/. Os textos de Nirmala no zafu.blog.br estão traduzidos e publicados com autorização do autor.

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