[Advaita] Desejando o que é

Desire

O Buda falou sobre o desejo. Ele disse que o desejo é a causa de todo sofrimento – a raiz de todo o sofrimento. “Desejo” é uma palavra muito interessante. Tem que ser uma palavra interessante, já que o desejo é algo tão poderoso que pode causar todo o sofrimento no mundo. Ele não disse que a maior parte do sofrimento ou uma grande parte dele, mas sim que todo ele – cada incômodo do ser é causado meramente pelo desejo. Então, ele é uma força muito poderosa. Assim, vale a pena olhar para esta coisa que pode causar todo o sofrimento que você já experimentou.

Uma das coisas que você pode notar sobre o desejo – algo muito óbvio que acaba sendo esquecido – é que todo desejo é uma mentira. Todo desejo é baseado na idéia de que as coisas podem ser diferentes do que são, e justamente isso é algo nunca foi verdade. As coisas nunca foram diferentes do que foram em um determinado momento. Você pode até mesmo perceber como esta mentira pode ter surgido, porque as coisas quase sempre são diferentes do que eram antes, mas elas simplesmente não são diferentes do que são agora. Elas são sempre do jeito que são. Assim, observando isso, nós começamos a pensar que nós podemos partir desta situação “do modo como as coisas são” (que está sempre mudando) e decidir como elas vão ser daí para diante. Isso também está baseado em uma mentira. Você precisa apenas olhar para sua própria experiência. Quantas vezes isso funcionou? Quantas vezes as coisas aconteceram exatamente do jeito que você queria que elas acontecessem, do modo que você desejou que elas fossem? Infelizmente, de vez em quando isso acontece, então somos fisgados – como em uma máquina caça-níqueis. De vez em quanto conseguimos o que desejamos. Mas é uma questão aleatória de sorte. Se você desejar uma quantidade suficientemente grande de coisas, de vez em quando você vai consegui-las.

O que muitas vezes as pessoas fazem quando vêem esta mentira é aceitar as coisas como elas são. É engraçado, no entanto, na velha e simples aceitação pode haver uma sensação de estar derrotado, um sentimento de resignação: eu vou aceitar o que é, mas eu não tenho que gostar! A aceitação pode ter esta característica. Então, eu o convido a considerar uma outra possibilidade. É uma possibilidade estranha, mas que dá resultados simplesmente maravilhosos. E ela é realmente desejar o que é: ir de encontro “ao que é” com a mesma paixão que você poderia ter tido com o que poderia ser ou o que você achava que deveria estar acontecendo. Vá ao encontro “do que é” com esse tipo de paixão, com essa força que é capaz de gerar todo o sofrimento no mundo. Traga essa força para suportar o que é, a verdade, em vez suportar uma mentira.

Existe uma outra palavra para isso: gratidão. É diferente do que simplesmente aceitar. Aceitar é algo sem vida, que carece de paixão ou interesse. É por isso que mesmo que as pessoas possam contentar-se que as coisas sejam do jeito que são, muitas vezes voltam para o “interesse” de querer as coisas sejam diferentes. No desejo há pelo menos um drama, há intensidade, paixão e vida, mesmo que no final resulte em sofrimento. Mas há uma outra possibilidade: realmente desejar o que é com sinceridade, realmente, verdadeiramente, dizer sim a este momento, ao que é, exatamente do jeito que está agora, trazendo esse tipo de paixão e vivacidade à maneira como as coisas são. Isso traz felicidade ilimitada e instantânea porque cada desejo é satisfeito.

A razão pela qual as pessoas não fazem essa escolha simples, mas radical de querer “o que é” é por que isso é simples demais. Você não precisa nem levantar um dedo. Nada é necessário. As pessoas evitam isso porque ao querer o que é a tarefa do ego torna-se “não fazer nada.” Realmente não sobra para o ego fazer, para aquilo que você pensou que você era. Esse é o preço a ser pago: para realmente querer o que é, você tem que desistir da idéia de ser alguém que pode mudar o que é. Não há mais lugar para isso. Mudar alguma coisa seria trabalhar com objetivos opostos ao que você deseja.

(… continua…)

Desiring what is, Nirmala

Nirmala é um professor espiritual da tradição advaita. Nirmala vive em Sedona, Arizona, com sua esposa, Gina. Leia uma entrevista com Nirmala aqui.  Mais informações sobre ele e seus livros, incluindo That is That, Essays About True Nature estão disponíveis em http://endless-satsang.com/. Os textos de Nirmala no zafu.blog.br estão traduzidos e publicados com autorização do autor.

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